Limpe meus olhos!
julho 18, 2018

Saudade

Estou tentando fazer da escrita um exercício diário. Sem grandes pretensões, este movimento tem me ensinado que tudo é uma questão de hábito e prioridade. Não fui destas crianças que cresceu dormindo entre os livros, nem fui incentivada a ler as grandes obras da literatura. Ainda estou aprendendo,  tentando recuperar o tempo que perdi e namorando um lugar ainda novo em mim. Ter você do outro lado lendo e me acompanhando, é um estímulo e tanto. Vamos ao assunto…

Um dia desses  assisti uma parte do filme em documentário, de Paulo Caldas, intitulado “Saudade”. Durante 3 anos foram recolhidos inúmeros depoimentos de artistas de 4 países lusófonos sobre essa palavra tão forte em nossa língua.

Fiquei meio hipnotizada com a forma como cada artista, cada poeta, em sua sincera definição de saudade, procurava dentro de si muito mais sua beleza à sua tristeza. E mesmo na tristeza a saudade era bonita.

A medida que os depoimentos iam passando, percebi  que não era possível falar da saudade sem falar de sí mesmo. De fato, não existe saudade fora da gente. Não é possível definir o gosto do sintoma,  quando o infectado com o vírus  é o outro. Existe muitos tipos de saudade mas todas falam sobre nós e conosco.

Seja de alguém, de comida, de algum lugar ou momento, a saudade é diferente de sentir falta. Saudade é a coisa boa da falta. A falta, é ausência sem lembrança, sem cheiro, sem gosto. A saudade não, é viva e mesmo quando é saciada com a presença é presente. Não some, parece cheiro de pão, que a gente ama mais o cheiro que o pão. Não existe saudade fora da gente, quando ela chega muda até o jeito de falar.

Dos tantos tipos de saudade que tem. Veio me visitar estes dias uma. Bateu em minha porta a saudade de mim amanhã. Do eu depois de hoje. De quem nem conheço ainda, e até então não sentia falta.  Essa não era a saudade do ontem. Veio do futuro. É diferente, veio do lugar que ainda não sei, só chegou querendo eu lá na frente.

Deixei ela entrar e logo foi se sentando, olhando as coisas da casa como se já não fosse presente. Olhando pra mim ela disse:

­­– onde você vai? 

– A nenhum lugar.

– E aí?

– E aí o que? o que você quer?

– Cadê você?

– Estou aqui.

–Não você hoje, você amanhã!

– Oxi!! Como assim, tá louca?

– Precisa quere-la.

– Quem?

– Você! Precisa querer você amanhã!! Você quer?

– Não sei! não me conheço amanhã!

– E hoje, conhece?

Meio bruta, se levantou da cadeira e foi embora, sem me dar chance de pensar.

Essa Saudade é habilidosa, veio do futuro, sabe das coisas. Sem mais nem menos bagunçou minha calmaria e foi embora.

Já tinha conhecido outras, as vezes até as uso para escrever alguma canção. Mas essa me pegou de jeito, veio como um furacão. Mudou o jeito de me ver e trouxe um “EU” que ainda não havia nascido. Nem sabia que estava dormindo em mim. A saudade o acordou, fez nascer, e agora como faço pra hiberná-lo de volta?

Desde desse dia acabei sendo minha mãe de amanhã. Alimento, cuido e deixo correr livre por aí, nem seguro mais.

A saudade? Acabou ficando por aqui, tá me ajudando a criar.